sexta-feira, julho 14, 2023

Roda Gigante

No parque, embarcamos eu e minha filha num encaixe para duas pessoas na roda gigante. Ao adentrar uma das gôndolas, acompanhava uma garotinha de 5 anos uma bela senhora, branca, de traços finos, e calça legging colorida.

Ao fundo, o sol principava um belo entardecer, tingindo o céu limpíssimo de tons avermelhados.

As crianças, em sua espontaneidade, puxam conversa tão naturalmente que, por vezes, acabam "quebrando o gelo" das nossas formalidades de adultos.

E em poucas linhas de conversa entre aquela mãe e este pai, surgiram alguns traços muito claros de afinidade. Lembranças de lugares comuns, de uma mesma época, no mesmo contexto de estarmos ali, numa roda gigante, na mesma gôndola, com crianças do mesmo sexo, a minha alguns anos mais velha.

E então aquela garotinha de 5 anos, na típica impaciência desta nova geração, começava a dar sinais de irritação e choro pela demora da gôndola em descer e finalizar sua volta. De uma forma pouco eficaz, sua mãe sinalizou que tudo acabaria logo.

Num lampejo daquele belo cenário, de duas doces meninas, de um sol esplendoroso e de uma mulher tão encantadora, sem hesitar chamei a atenção daquela garotinha, mostrando-lhe o sol no poente. Perguntei a ela, para dissuadir sua irritação: "quantas cores você vê ali onde está o sol?" E de imediato aquilo lhe prendeu a atenção, e ela começou a mencionar todos os tons avermelhados que via.

E vi um brilho no olhar daquela mãe, e espero não ter interpretado de maneira errada, mas senti uma "comunicação". E minha filha talvez tenha percebido algo, mas na verdade, tudo foi muito sutil, e em instantes o passeio finalizara, e nos despedíamos cordialmente. Ao acaso, minutos depois, eu e minha filha nos deparamos com a menina dançando ao som do parque. Sua mãe, agora junto ao marido, de forma muito natural, espontânea, sorriu e comentou algo. Sorri de volta, cumprimentei o casal, e fui tomado de uma satisfação imensa.

segunda-feira, junho 12, 2023

Sobre Cuidar de Pessoas

Uma das lições que aprendi nos últimos anos é que, mais cedo ou mais tarde, existir implica cuidar de pessoas. Em outros tempos, acreditei que eu seria alguém sem rumo, afastado da família e dos amigos (assim como o "Kamikaze do Rock", cantado pelo saudoso Cornelius Lucifer), que viveria livre, sem laços e morreria só, ou no máximo, com alguém sem importância. Assim como a maioria dos "rebeldes" brancos de classe média, fui muito covarde para me tornar um verdadeiro "kamikaze". Após casar e me tornar pai, eu ainda considerava que cuidar de pessoas estava limitado a cuidar de cônjuge e filhos.

Hoje me vejo embrenhado e enraizado nos laços familiares, sejam eles bons e tranquilos (comodismos e conveniências), sejam eles obrigatórios e enfadonhos. E como obrigatórios, incluo ocasos como parentes idosos distantes que perderam todos os seus entes mais próximos e acabaram entrando em nossa dependência (inclusive legal) por proximidade de parentesco.

Ocorre também que, a uma certa altura, mesmo que não se tenha filhos, seus pais podem acabar virando seus filhos. Calejados dos maltratos da vida e das décadas de cansativas relações interpessoais, quando senis, tornam-se filhos do tipo rebelde, incapazes de aprender, compreender ou mudar, teimosos feito mulas e facilmente ofendidos quando precisamos que reconheçam alguma incapacidade. Embora sejam eles que tenham cuidado de nós por bons anos, fica fácil entender porque cuidar de idosos é bem mais difícil que cuidar de crianças, ainda estivessem elas em maior número.

Por isso, ter filhos pode ser um ato de muita (ir)responsabilidade. Ao fim, nossos filhos terão um legado difícil de saber se estarão a altura: cuidar de nós, que vivemos em tempos de loucura, falsificação, banalização e desinformação; nós que talvez nos tornemos velhos tão ou mais problemáticos do que os que cuidamos hoje. Na pior das hipóteses, nossos filhos nos darão netos e não saberão cuidar deles, sobrando pra nós, avôs, mais uma responsabilidade que teremos de carregar enquanto ficamos velhos. Quanto pior se nossos filhos tiverem de cuidar de nós!

Em resumo, se não sabemos nem cuidar de nós mesmos, não devemos esperar que nossos filhos o façam.

Enquanto edito essa postagem, me incomodo com a tosse da minha filha. Eu que já me encontro sem sono, parei pra dar um xarope e levá-la ao banheiro. São duas e meia da manhã, e em breve levanto pra trabalhar. Esse é o menor dos problemas!

quinta-feira, agosto 10, 2017

O Tempo e o Vento

Alguns meses sem postar... o tempo vai passando e o vento vai levando as minhas memórias. Tantas ideias legais, elas vêm à minha mente e se vão sem que eu consiga registrá-las aqui. Parte por preguiça. Parte por falta de tempo e privacidade.

Justamente agora que me sento aqui, em frente ao meu notebook, não existem ideias interessantes para expressar. No entanto, o desejo de escrever se manifesta. Sigo desenvolvendo para ver onde chego.

A esta altura da vida, nasceu minha segunda filha. Com duas crianças é que o desafio de ser pai se torna maior. A mais velha não tem sono; minha esposa tem que cuidar da mais nova, que sofre de cólicas e acorda a noite inteira. Sobra pra mim cuidar da mais velha, colocá-la para dormir. Ela não quer dormir, eu tampouco, e rotinas já não funcionam mais para a menina.

Ela quer uma história, quer conversar, quer cantar, eram 22:00. Ela terá que acordar cedo amanhã, e sabe que será difícil acordar 6:30. E eu, sem a menor paciência para tagarelar, brincar, contar  história... Penso se não estou me esquivando da minha responsabilidade de pai, pois finjo sono e faço silêncio, deitado ao lado dela, na cama de casal. Ela inquieta não para. A irritação toma conta de mim. É neste momento em que entra a esposa no quarto. Ela também nervosa e impaciente pelo cansaço de não dormir satisfatoriamente. E eu? O que justifica esse nervosismo todo?

A verdade é que eu nunca quis ser pai. Eu não gosto de ser pai. Amo minhas filhas, porém, da mesma forma que acontece com quase todas as responsabilidades da minha vida, esta não seria uma que eu gostasse...

Como chegamos a esta situação? Vamos do começo.

Namorei porque me sentia só. Me sentia só porque estava endividado e não tinha mais dinheiro para gastar com a mulherada. Não tinha dinheiro porque nunca tive um bom trabalho. Nunca tive um bom trabalho porque nunca fui afeito aos estudos. Não fui afeito aos estudos porque me revoltei com a vida muito cedo.

Noivar era o curso natural dos acontecimentos. Na casa de minha mãe, os ânimos estavam acirrados. Com as contas em ordem por conta de uma herança, casar era o próximo passo.

Sinceramente, não me lembro como chegamos à conclusão de que era preciso ter um filho. Talvez pressão familiar? E tendo já uma filha, necessariamente achamos que seria bom ter um segundo pra acompanhar a primeira.

Amo minha esposa, mas não sei dizer ao certo o que é amar. Não deveríamos amar todos os seres humanos? Não sinto aquele amor possessivo, no entanto, sinto que não poderia viver sem ela. Será que sem filhos ainda teríamos aquele amor romântico cheio de gentilezas? Vivemos de saco cheio e cansados de depender dos outros por causa das filhas e por conta das finanças limitadas; mas não podemos reclamar, afinal de contas, fizemos nossas escolhas juntos.

Fato é que, após abrir tantas concessões pressionado pelas circunstâncias da vida, esta me encaminhou para aquela vala comum que a maioria dos seres humanos se encontra hoje, da qual não estou certo se há saída. Apenas sei que nesta vala sigo meu curso, lentamente, havendo pouquíssimas bifurcações pelo caminho.

A velhice deve estar chegando muito cedo. E enquanto o tempo passa, o vento vai me levando para onde a vida espera que eu esteja.

terça-feira, abril 25, 2017

El Toro - O Retorno

É com imenso prazer que atualizo este blog, após quase 10 anos de inatividade, contando a partir da última postagem melancólica e estúpida ao mesmo tempo.

Não se pode ser jovem para sempre; fatalmente nossos gostos e estímulos passam a ser um pouco diferentes. Não que eu seja um velho, ainda sou novo e, mesmo que de forma inútil, sexualmente ativo. Manter determinados estilos de vida pode ser bem caro, tanto para o bolso quanto para a saúde física e mental. E o meu não era diferente. Em lugar do dinheiro, surgiram dívidas enormes. Em lugar das múltiplas companhias, a solidão tornou-se rotineira. O trabalho mau remunerado e estressante me fez experimentar os primeiros antidepressivos. Deprimido, sem dinheiro e sem ânimo, o que fazer? Claro, arranjar uma parceira que não seja interesseira, que me ajude a organizar minhas contas, e ao mesmo tempo, que me ame incondicionalmente.

Eis que tudo se deu de acordo com os mais óbvios clichês desta vida, desde a adaptação na cama com a parceira, até o primeiro banal "eu te amo", passando pelo noivado, casamento, e ultimamente, já estamos prestes a ter outro bebê. Uma parceria segura e harmoniosa, capaz de acabar com os mais persistentes ideais e despersonalizar quem se julgava "cheio de atitude".

Nietzsche dizia - sei que há isso em algum livro dele que li antigamente - que quando se amadurece, se acha as ideias da própria juventude aborrecidas. Eu acredito estar neste ponto, e a ponto de achar os ideais dos jovens de hoje tão ridículos e fúteis. Porém, Nietzsche diz também que, a certa altura, já mais maduros ainda, passamos a entender que aqueles nossos ideais da juventude fazem mais sentido do que pensamos. Se um dia eu chegar neste ponto, farei a confissão e provarei a teoria de Nietzsche.

Este blog sempre foi movido por uma força interna muito forte, um ego do tamanho de uma cidade. As constantes obrigações desta vida fazem realmente um homem perder muitas das suas convicções. E quais as minhas convicções hoje em dia? Nenhuma! Sou um sem convicção. Na verdade, quanto mais o tempo passa, mais cético fico de que exista sequer algum estilo de vida ideal ou um tipo de comportamento que seja mais benéfico em termos de civilização. Tornei-me um incrédulo em quase todo tipo de instituição. E as que tentam fazer o bem apenas estão retardando uma possível grande catástrofe.

Viver para se divertir inconsequentemente ou viver com responsabilidade para manter a ordem? "Quem quer manter a ordem? Quem quer criar desordem?" Conhecem essa já, né! Ninguém, nem um, nem outro. Todos são culpados, em maior ou menor grau.

Pode ser triste para alguém ouvir ou ler isto, mas escolhi ser mais uma engrenagem desta grande máquina social. Agora com família e contas a pagar, a escolha mais fácil é abandonar todo tipo de ideal, em prol da "sagrada" convivência familiar. E a família, de fato, exige muito. Vivo para ela e por ela.

Meu raciocínio é lento e confuso, minha percepção e estímulo diminuíram ainda mais nesses poucos anos sem digitar um blog. No entanto, agora tenho algo a dizer, e a minha mente por vezes transborda pensamentos. E este é meu objetivo por aqui, tentar reproduzir partes da minha percepção, mesmo que pela pura tentação de, quem sabe, ser lido ou ter o ego preenchido pelo comentário de algum incauto que resolver ler este blog. Porque, no fundo, publicar um texto de caráter pessoal é ego, e ponto. Outro ponto motivador é exercitar meu desenvolvimento de texto, mesmo sem as nuances psicológicas da escrita manual, que imprimem certa carga emocional, embora só possam ser decodificadas por algum especialista em grafia.

Para os que passarem a me visitar, informo este blog já foi muito ativo no passado, e constituía-se apenas de narrativas referentes às peripécias deste autor. Antigamente chamado "Minha Vida é o Rock'n'Roll", quase tudo que era contado eram vantagens, sempre verdadeiras, porém com uma certa dose de exagero nos detalhes. Era gostoso, e tinha alguns poucos apreciadores que me motivavam a escrever mais e mais insanidades :)

A partir de hoje, podemos esperar de tudo neste espaço, um muro de texto, ou 3 linhas soltas de pensamento. E eu espero poder olhar pra isso e poder um dia entender melhor o que se passava comigo, assim como eu agora entendo melhor o que se passava comigo há 12 anos atrás (as primeiras postagens são de 2005!). Serão dois blogs diferentes em um, esta nova fase talvez uma parte mais lúcida e madura.

Sejam bem vindos, quem quer que chegue, se acaso chegar alguém!

terça-feira, julho 29, 2008

Money

Olha... eu não morri não, hein... nem estou perdidamente apaixonado e desisti de toda a vida louca, como fiz parecer nesses últimos posts antigos.

Mas tenho de dizer, meus amigos: minha felicidade, auto-estima e segurança-de-mim estão diretamente ligadas ao meu nível de grana. Não dá pra fazer nada de interessante sem grana.

Logo, não tenho nada pra escrever, não tenho mulheres, nem sossego, nem baladas, estou em casa, vivendo em frente da tv e do computador.

Resumindo, não tô feliz.

quarta-feira, março 14, 2007

A Despedida

Ela me deixou uma mensagem pelo celular na manhã de segunda.

Disse que precisava se despedir, queria muito.

Meus olhos se encheram de lágrimas.

Liguei pra ela e combinamos um último encontro.

Matei aula na faculade para vê-la.

Comprei um presente cheio de significado.

Escrevi uma poesia em um cartão.

Nos demos um longo abraço.

Lanchamos juntos à noitinha.

Chorei ao entregar os presentes.

Me recompus com esforço.

Levei-a ao terraço do hotel onde ela estava hospedada.

Nos sentimos em bocas, línguas e dedos, rente à piscina.

Descemos.

Prometemos nos falar sempre.

Demos um último beijo, com ternura.

Ela pegou o táxi.

Hoje, há pouco, voou para Alagoas.

A medicina a espera.

O começo da sua realização pessoal.

Resta-me a saudade.

Dessa mulher de fibra, ao mesmo tempo tão doce.

Receba todo meu carinho, baby

E o meu amor, mesmo distante.

eu

sábado, fevereiro 03, 2007

taureau é Dom Juan?

Do signo de touro, taureau se faz apaixonar. Ocorre que estou ficando preocupado com minha última conquista sexual. Após fazê-la gozar duas vezes, uma no tradicional, outra no dedo, cheguei até a ouvi-la dizer que, durante seu primeiro orgasmo, sentira todas as suas veias circularem sangue. Fiquei preocupado, não sabia se ela sentia uma dor terrível ou muito prazer na hora. Sobre o segundo, ela me disse ter sido algo muito diferente, especial, que nunca sentira antes.

Suas experiências fazem dela uma pessoa muito interessante, ainda que um tanto misteriosa. Estudou medicina seis anos em Cuba, sofreu bocados, e hoje luta para ficar legalmente no Brasil. Muito misteriosa ao falar sobre suas origens e viagens, ela é uma mulher muito doce, meiga. Eu tenho medo de deixá-la. Vamos dar tempo ao tempo, até que ela descubra que por trás da minha serenidade e calma, existe um leão faminto e ansioso. Ou melhor, um touro.