quinta-feira, agosto 10, 2017

O Tempo e o Vento

Alguns meses sem postar... o tempo vai passando e o vento vai levando as minhas memórias. Tantas ideias legais, elas vêm à minha mente e se vão sem que eu consiga registrá-las aqui. Parte por preguiça. Parte por falta de tempo e privacidade.

Justamente agora que me sento aqui, em frente ao meu notebook, não existem ideias interessantes para expressar. No entanto, o desejo de escrever se manifesta. Sigo desenvolvendo para ver onde chego.

A esta altura da vida, nasceu minha segunda filha. Com duas crianças é que o desafio de ser pai se torna maior. A mais velha não tem sono; minha esposa tem que cuidar da mais nova, que sofre de cólicas e acorda a noite inteira. Sobra pra mim cuidar da mais velha, colocá-la para dormir. Ela não quer dormir, eu tampouco, e rotinas já não funcionam mais para a menina.

Ela quer uma história, quer conversar, quer cantar, eram 22:00. Ela terá que acordar cedo amanhã, e sabe que será difícil acordar 6:30. E eu, sem a menor paciência para tagarelar, brincar, contar  história... Penso se não estou me esquivando da minha responsabilidade de pai, pois finjo sono e faço silêncio, deitado ao lado dela, na cama de casal. Ela inquieta não para. A irritação toma conta de mim. É neste momento em que entra a esposa no quarto. Ela também nervosa e impaciente pelo cansaço de não dormir satisfatoriamente. E eu? O que justifica esse nervosismo todo?

A verdade é que eu nunca quis ser pai. Eu não gosto de ser pai. Amo minhas filhas, porém, da mesma forma que acontece com quase todas as responsabilidades da minha vida, esta não seria uma que eu gostasse...

Como chegamos a esta situação? Vamos do começo.

Namorei porque me sentia só. Me sentia só porque estava endividado e não tinha mais dinheiro para gastar com a mulherada. Não tinha dinheiro porque nunca tive um bom trabalho. Nunca tive um bom trabalho porque nunca fui afeito aos estudos. Não fui afeito aos estudos porque me revoltei com a vida muito cedo.

Noivar era o curso natural dos acontecimentos. Na casa de minha mãe, os ânimos estavam acirrados. Com as contas em ordem por conta de uma herança, casar era o próximo passo.

Sinceramente, não me lembro como chegamos à conclusão de que era preciso ter um filho. Talvez pressão familiar? E tendo já uma filha, necessariamente achamos que seria bom ter um segundo pra acompanhar a primeira.

Amo minha esposa, mas não sei dizer ao certo o que é amar. Não deveríamos amar todos os seres humanos? Não sinto aquele amor possessivo, no entanto, sinto que não poderia viver sem ela. Será que sem filhos ainda teríamos aquele amor romântico cheio de gentilezas? Vivemos de saco cheio e cansados de depender dos outros por causa das filhas e por conta das finanças limitadas; mas não podemos reclamar, afinal de contas, fizemos nossas escolhas juntos.

Fato é que, após abrir tantas concessões pressionado pelas circunstâncias da vida, esta me encaminhou para aquela vala comum que a maioria dos seres humanos se encontra hoje, da qual não estou certo se há saída. Apenas sei que nesta vala sigo meu curso, lentamente, havendo pouquíssimas bifurcações pelo caminho.

A velhice deve estar chegando muito cedo. E enquanto o tempo passa, o vento vai me levando para onde a vida espera que eu esteja.

terça-feira, abril 25, 2017

El Toro - O Retorno

É com imenso prazer que atualizo este blog, após quase 10 anos de inatividade, contando a partir da última postagem melancólica e estúpida ao mesmo tempo.

Não se pode ser jovem para sempre; fatalmente nossos gostos e estímulos passam a ser um pouco diferentes. Não que eu seja um velho, ainda sou novo e, mesmo que de forma inútil, sexualmente ativo. Manter determinados estilos de vida pode ser bem caro, tanto para o bolso quanto para a saúde física e mental. E o meu não era diferente. Em lugar do dinheiro, surgiram dívidas enormes. Em lugar das múltiplas companhias, a solidão tornou-se rotineira. O trabalho mau remunerado e estressante me fez experimentar os primeiros antidepressivos. Deprimido, sem dinheiro e sem ânimo, o que fazer? Claro, arranjar uma parceira que não seja interesseira, que me ajude a organizar minhas contas, e ao mesmo tempo, que me ame incondicionalmente.

Eis que tudo se deu de acordo com os mais óbvios clichês desta vida, desde a adaptação na cama com a parceira, até o primeiro banal "eu te amo", passando pelo noivado, casamento, e ultimamente, já estamos prestes a ter outro bebê. Uma parceria segura e harmoniosa, capaz de acabar com os mais persistentes ideais e despersonalizar quem se julgava "cheio de atitude".

Nietzsche dizia - sei que há isso em algum livro dele que li antigamente - que quando se amadurece, se acha as ideias da própria juventude aborrecidas. Eu acredito estar neste ponto, e a ponto de achar os ideais dos jovens de hoje tão ridículos e fúteis. Porém, Nietzsche diz também que, a certa altura, já mais maduros ainda, passamos a entender que aqueles nossos ideais da juventude fazem mais sentido do que pensamos. Se um dia eu chegar neste ponto, farei a confissão e provarei a teoria de Nietzsche.

Este blog sempre foi movido por uma força interna muito forte, um ego do tamanho de uma cidade. As constantes obrigações desta vida fazem realmente um homem perder muitas das suas convicções. E quais as minhas convicções hoje em dia? Nenhuma! Sou um sem convicção. Na verdade, quanto mais o tempo passa, mais cético fico de que exista sequer algum estilo de vida ideal ou um tipo de comportamento que seja mais benéfico em termos de civilização. Tornei-me um incrédulo em quase todo tipo de instituição. E as que tentam fazer o bem apenas estão retardando uma possível grande catástrofe.

Viver para se divertir inconsequentemente ou viver com responsabilidade para manter a ordem? "Quem quer manter a ordem? Quem quer criar desordem?" Conhecem essa já, né! Ninguém, nem um, nem outro. Todos são culpados, em maior ou menor grau.

Pode ser triste para alguém ouvir ou ler isto, mas escolhi ser mais uma engrenagem desta grande máquina social. Agora com família e contas a pagar, a escolha mais fácil é abandonar todo tipo de ideal, em prol da "sagrada" convivência familiar. E a família, de fato, exige muito. Vivo para ela e por ela.

Meu raciocínio é lento e confuso, minha percepção e estímulo diminuíram ainda mais nesses poucos anos sem digitar um blog. No entanto, agora tenho algo a dizer, e a minha mente por vezes transborda pensamentos. E este é meu objetivo por aqui, tentar reproduzir partes da minha percepção, mesmo que pela pura tentação de, quem sabe, ser lido ou ter o ego preenchido pelo comentário de algum incauto que resolver ler este blog. Porque, no fundo, publicar um texto de caráter pessoal é ego, e ponto. Outro ponto motivador é exercitar meu desenvolvimento de texto, mesmo sem as nuances psicológicas da escrita manual, que imprimem certa carga emocional, embora só possam ser decodificadas por algum especialista em grafia.

Para os que passarem a me visitar, informo este blog já foi muito ativo no passado, e constituía-se apenas de narrativas referentes às peripécias deste autor. Antigamente chamado "Minha Vida é o Rock'n'Roll", quase tudo que era contado eram vantagens, sempre verdadeiras, porém com uma certa dose de exagero nos detalhes. Era gostoso, e tinha alguns poucos apreciadores que me motivavam a escrever mais e mais insanidades :)

A partir de hoje, podemos esperar de tudo neste espaço, um muro de texto, ou 3 linhas soltas de pensamento. E eu espero poder olhar pra isso e poder um dia entender melhor o que se passava comigo, assim como eu agora entendo melhor o que se passava comigo há 12 anos atrás (as primeiras postagens são de 2005!). Serão dois blogs diferentes em um, esta nova fase talvez uma parte mais lúcida e madura.

Sejam bem vindos, quem quer que chegue, se acaso chegar alguém!