Hoje me vejo embrenhado e enraizado nos laços familiares, sejam eles bons e tranquilos (comodismos e conveniências), sejam eles obrigatórios e enfadonhos. E como obrigatórios, incluo ocasos como parentes idosos distantes que perderam todos os seus entes mais próximos e acabaram entrando em nossa dependência (inclusive legal) por proximidade de parentesco.
Ocorre também que, a uma certa altura, mesmo que não se tenha filhos, seus pais podem acabar virando seus filhos. Calejados dos maltratos da vida e das décadas de cansativas relações interpessoais, quando senis, tornam-se filhos do tipo rebelde, incapazes de aprender, compreender ou mudar, teimosos feito mulas e facilmente ofendidos quando precisamos que reconheçam alguma incapacidade. Embora sejam eles que tenham cuidado de nós por bons anos, fica fácil entender porque cuidar de idosos é bem mais difícil que cuidar de crianças, ainda estivessem elas em maior número.
Por isso, ter filhos pode ser um ato de muita (ir)responsabilidade. Ao fim, nossos filhos terão um legado difícil de saber se estarão a altura: cuidar de nós, que vivemos em tempos de loucura, falsificação, banalização e desinformação; nós que talvez nos tornemos velhos tão ou mais problemáticos do que os que cuidamos hoje. Na pior das hipóteses, nossos filhos nos darão netos e não saberão cuidar deles, sobrando pra nós, avôs, mais uma responsabilidade que teremos de carregar enquanto ficamos velhos. Quanto pior se nossos filhos tiverem de cuidar de nós!
Em resumo, se não sabemos nem cuidar de nós mesmos, não devemos esperar que nossos filhos o façam.
Enquanto edito essa postagem, me incomodo com a tosse da minha filha. Eu que já me encontro sem sono, parei pra dar um xarope e levá-la ao banheiro. São duas e meia da manhã, e em breve levanto pra trabalhar. Esse é o menor dos problemas!